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18 Dez

PERCURSO PELA ANTIGA DISTRIBUIÇÃO DA ÁGUA EM LISBOA

 

Percurso pela antiga distribuição da água em Lisboa

Texto & Fotos de Mário Menezes

 

A água, que é vital à nossa sobrevivência, é um recurso que existe em abundância na natureza, porém tratá-la, transformá-la em água potável (própria para beber) e fazê-la chegar aos locais de consumo, às nossas torneiras, custa caro. A água potável é um bem escasso e todos nós devemos ter consciência quando a desperdiçamos. Há países em que viajamos, onde a água da torneira não é potável, sendo aconselhável o consumo de água engarrafada, até mesmo para lavar os dentes! E há milhões de seres humanos que não têm acesso a uma casa de banho e muito menos à água potável.

 

Reservatório Mãe d’Água das Amoreiras- Lisboa

 

Uma das áreas da engenharia, civil, química, do ambiente ou mecânica, está relacionada com o tratamento da água. Seja para consumo público, seja para outros fins, como por exemplo a refrigeração de equipamentos industriais, ou até mesmo para a agricultura. Os parâmetros como o pH ou a dureza, esta última propriedade relacionada com a concentração de iões de determinados minerais, têm vital importância consoante a finalidade. Um tratamento de águas para a indústria pode ir até ao ponto da total desmineralização. Já para o consumo doméstico, uma água totalmente desmineralizada não serviria, pois, por exemplo, não coze os alimentos. Discutir e analisar as componentes físicas e químicas da água, que não se encontra na natureza como uma substância pura (H2O) mas como um composto, e todos estes tratamentos necessários para colocá-la no circuito de consumo, seria impossível fazê-lo num artigo de viagens, onde se pretende a vertente turística e não a técnica.

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos- Lisboa

 

A distribuição de águas também é um ramo da engenharia, sobretudo civil e mecânica. A água, tratando-se de um fluido, desloca-se de locais onde a pressão é alta para outros onde a pressão é mais baixa. A pressão está relacionada com força, logo com energia.  Energia cinética, portanto do movimento ou energia potencial, que se transforma em cinética, que está relacionada com a altura, com a força da gravidade, daí que a água se desloque de um local mais alto, para um local mais baixo. Não sendo possível utilizar a força da gravidade, pois a altitude é insuficiente, é necessário recorrer a equipamentos mecânicos. Elevação de águas significa fornecer energia a uma massa de água por forma a que a mesma se possa movimentar, fluindo pelas condutas até ao destino.

Discutir e analisar hidrostática e hidrodinâmica também seria impossível fazê-lo num artigo de viagens, onde se pretende a vertente turística e não a técnica. Isto é apenas algo introdutório, pois para fazer uma dissertação sobre como transformar uma água bruta em água potável e sua distribuição, seria necessário que o público alvo estudasse vários compêndios de engenharia e das suas ciências que lhe deram origem, a física, a química e a matemática em nível avançado. E também da minha parte seria necessário rever muitas matérias que estudei no meu curso, além do mais, não trabalho nesta área. E de certeza que poucos viajantes se interessariam por ler algo tão massudo e por vezes “intragável”…

 

Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, edifício

 

Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, busto do brigadeiro Manuel da Maia

 

A EPAL é a empresa responsável pelo abastecimento e distribuição de água ao Município de Lisboa e a muitos outros. A água nos dias de hoje, é captada “à superfície”, no Rio Zêzere, na Albufeira de Castelo do Bode e no Rio Tejo, em Valada, e de forma “subterrânea” em diversas lezírias e em poços localizados na zona da OTA e de Alenquer. É depois entregue a uma complexa rede de tratamento e distribuição. Esta última composta por reservatórios onde é armazenada, condutas e aquedutos, com destaque para o do Alviela, por onde flui, estações elevatórias e grupos compostos por eletrobombas onde a sua pressão é incrementada e lhe permite fluir.
A água é atualmente distribuída na cidade de Lisboa por modernos equipamentos, onde além da mecânica a eletrónica e a informática têm papel determinante no controlo e melhoria dos processos produtivos. A ciência e a tecnologia evoluem diariamente, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. O que hoje se faz de uma certa forma, amanhã já é feito de forma diferente e a forma como as coisas ontem se faziam, hoje é impraticável e obsoleto. A História não se pode apagar, para isso servem os museus e monumentos, onde as gerações atuais e vindouras irão conhecer o futuro, conhecendo melhor o passado.

A distribuição de água em Lisboa, em tempos idos, hoje é património museológico.

 

Aqueduto das Águas Livres, referência ao Arco Grande

 

O núcleo museológico da EPAL, o Museu da água em Lisboa é composto por vários núcleos: O Aqueduto das Águas Livres, o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, o Reservatório da Patriarcal e a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos. As vertentes técnica e artística dos locais são indissociáveis! Visitá-los é acima de tudo um regalo para a vista!

 

Aqueduto das Águas Livres

 

Os aquedutos servem para distribuir água a grandes distâncias, por efeito da gravidade, portanto a “pendente” está a montante. Podem ser subterrâneos ou aéreos. Os aéreos são normalmente construídos sobre arcadas. Ao longo da História, diversas civilizações construíram aquedutos: A da China, a da Grécia e Romana.
Foi durante a Civilização Romana que os aquedutos tiveram um grande desenvolvimento. A cidade de Roma, no século III era abastecida por 14 aquedutos, o maior com 93 km de extensão. A caraterística dos aquedutos Romanos, é a utilização de arcos de volta perfeita, o arco romano, e não ogival, os quais só surgiram na Idade Média, características do estilo Gótico. Com este formato, permitia-lhes atravessar os vales mais profundos com construções relativamente leves e elegantes. São essas estruturas que nós associamos aos aquedutos Romanos, pois são as mais visíveis e espetaculares, tal como o nosso Aqueduto das Águas Livres.

 

Aqueduto das Águas Livres, entrada

 

Aqueduto das Águas Livres, vista para o Vale de Alcântara

 

Aqueduto das Águas Livres, vista para o Vale de Alcântara

 

Aqueduto das Águas Livres foi construído entre 1731 e 1799 e foi classificado como Monumento Nacional em 1910. Ele transportava a água desde as nascentes das Águas Livres na bacia hidrográfica da serra de Sintra, na zona de Belas. O trajeto coincidia em parte com o percurso de um antigo aqueduto Romano.  A obra resistiu ao terramoto de 1755.

É composto por um troço principal, de 14 km de extensão, desde a Mãe d´Água Velha, em Belas, até ao reservatório da Mãe d’ Água das Amoreiras, em Lisboa, e por vários troços secundários destinados a transportar a água desde as cerca de 60 nascentes. Possui 5 galerias para abastecimento de cerca de 30 chafarizes em Lisboa. Atingia então a totalidade de 58 km de extensão em meados do século XIX. Desde os anos 60 que as suas águas deixaram de ser aproveitadas para consumo humano.
A Arcaria do Vale de Alcântara, com os seus 941m, é composta por 35 arcos, entre eles o maior arco em ogiva, em pedra, do mundo, com 65,29 m de altura e 28,86 m de largura.
O local teve o seu lado tenebroso: O assassino do Aqueduto das Águas Livres. Diogo Alves, o maior serial killer de Lisboa. Em 1836, matou ali muitas das suas vítimas. Transeuntes, comerciantes e estudantes que usavam um caminho estreito no, o passadiço do alto do aqueduto como atalho para o centro de Lisboa. As vítimas eram então abordadas, roubadas e posteriormente atiradas lá do alto. Como se tratava de pessoas pobres, as autoridades não tinham muito interesse em investigar, sendo tudo tratado como suicídios. Devido a esta “onda de suicídios” o aqueduto foi encerrado como passagem. Então Diogo Alves alterou o seu “modus operandi” e passou a comandar uma quadrilha que roubava e matava. Foi o massacre da família de um médico, durante um assalto dessa quadrilha, que o levou à barra do tribunal. Diogo Alves acabou condenado à morte não pelos crimes do aqueduto, que nem sequer constam no processo, estando o seu nome inscrito como o último executado em Portugal, encontrando-se a sua cabeça preservada em museu, pois alguns cientistas pretenderam estudar o cérebro de um assassino e descobrir o que o levou a cometer tais atrocidades sem ponta de remorso.
Hoje Aqueduto das Águas Livres é um local seguro, que se encontra fechado como local de passagem, apenas como local turístico de visita, podendo observar-se a vista desde o seu topo, para o Vale de Alcântara, com a Ponte 25 de Abril ao fundo e do lado contrário a cidade de Lisboa. É possível também observar as as suas galerias e torres de ventilação.

 

Aqueduto das Águas Livres, vista a Norte com as Amoreiras ao fundo

 

Aqueduto das Águas Livres, troço que entra em Lisboa no Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras

 

Aqueduto das Águas Livres, passadiços. Por aqui Diogo Alves cometia os seus crimes

 

Aqueduto das Águas Livres, galerias

 

Quando circulamos pelo Eixo Norte-Sul, entre a Av. Calouste Gulbenkian e a Av.de Ceuta ou de comboio pela linha do Sul, cruzamos a sua arcaria que é um ex-libris de Lisboa. E num passeio de bicicleta por Lisboa com os amigos, uma foto com o aqueduto é sempre uma recordação para marcar um dia bem passado.

 

Aqueduto das Águas Livres, visto ao longe, de Campolide, numa pausa de um passeio de bicicleta

 

Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras

 

O Aqueduto das Águas Livres entra em Lisboa pelo arco da Rua das Amoreiras, e termina no Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras. A água que aqui chegava era posteriormente distribuída pela cidade de Lisboa.

 

Casa do Registo- Reservatório Mãe d’Agua das Amoreiras- Lisboa

 

Reservatório da Mãe d’Agua das Amoreiras

 

Reservatório da Mãe d’Agua das Amoreiras

 

Reservatório da Mãe d’Agua das Amoreiras

 

Inicialmente o projeto do reservatório, do arquiteto Húngaro Carlos Mardel, realizado entre 1746 e 1748, previa a existência de mais três arcos, prolongando-se o edifício até ao Largo do Rato. O projeto final é uma versão simplificada, pois diminuiu o número de tanques e também a decoração exterior. Após a morte de Carlos Mardel, a obra que fora iniciada em 1746 ainda se encontrava por concluir. Sendo Retomada em 1771 voltou a ter algumas modificações ao projeto inicial, nomeadamente na cobertura, na cascata e na colocação de 4 pilares quadrangulares em detrimento das 4 colunas toscanas previstas anteriormente. A conclusão da obra, com o remate da cobertura e mais alguns pormenores, ocorreu já em 1834 durante o reinado de D. Maria II.
Nos dias de hoje, o local é um espaço amplo e o seu interior parece-se com uma igreja.
A água sai de uma cascata,  da boca de um golfinho construído com pedra transportada das nascentes do Aqueduto das Águas Livres, alimentando o tanque de 7,5 m de profundidade e capacidade de 5.500 m3. Do tanque emergem quatro colunas que sustentam um teto de abóbadas de aresta que, por sua vez, suporta o terraço panorâmico, de onde podemos desfrutar de bonitas vistas sobre Lisboa.
Junto ao edifício encontra-se a Casa do Registo, o local onde se controlavam os caudais de água que abasteciam os chafarizes, fábricas, conventos e casas nobres de Lisboa.
Atualmente é um local onde se realizam exposições e diversos eventos nomeadamente de moda, espetáculos de luzes imersivas e concertos.

 

Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, interior, vista para o tanque

 

Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, golfinho que jorra água no reservatório

 

Reservatório da Patriarcal

 

Trata-se de uma estrutura subterrânea, localizada no Jardim do Príncipe Real, tendo sido projetada em 1856 pelo Engenheiro Francês Louis-Charles Mary, com o objetivo de abastecer a zona da Baixa de Lisboa.

Foi construído entre 1860 e 1864 e desativado no final dos anos 40. Tem uma forma octogonal coincidente com o gradeamento em volta do lago que se localiza no centro do jardim do Príncipe Real. Era inicialmente abastecido pelo Aqueduto das Águas Livres, mas a partir de 1833 passou a ser pelo sistema Alviela.

Construído em alvenaria, é composto por dois compartimentos com capacidade total de 884m3 de água. A função principal era a regulação da pressão entre o Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras, que se encontra a maior altitude, e a canalização de distribuição para a zona da Baixa de Lisboa, portanto a uma altitude menor.

 

Reservatório da Patriarcal, entrada

 

Reservatório da Patriarcal, entrada

 

Reservatório da Patriarcal, interior subterrâneo

 

Possui 31 pilares com 9,25 m de altura com diversas larguras. Estes suportam os arcos em cantaria que sustentam as abóbadas. É sobre as abóbadas que assenta a bacia, que constitui o lago com o seu repuxo. Tanto o lago como o repuxo eram destinados ao arejamento das águas que entravam no depósito através de quatro aberturas colocadas no fundo da bacia, contendo tubos que se prolongavam até à superfície da água, funcionando como escoadouros.

Deste reservatório partem três galerias subterrâneas: Uma, da parede do lado oriental que dá acesso à Galeria do Loreto, que era responsável pelo transporte de água do Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras. A outra, por baixo desta galeria, que seguia até à Rua da Alegria. A última da parede do lado ocidental que partia em direção à Rua de S. Marçal e abastecia a zona poente de Lisboa.

É possível fazer visitas guiadas, caminhando pela Galeria do Loreto. O percurso tem início na Casa do Registo, junto ao Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras. Desce paralelamente à Rua das Amoreiras até ao Largo do Rato. Passa paralelamente à Rua da Escola Politécnica e à Rua D. Pedro V.  Prossegue pela Rua da Misericórdia, atravessa o Largo do Chiado e depois pela Rua Paiva de Andrade e terminando no Largo de São Carlos.

 

Entrada para a Galeria subterrânea do Loreto pela Rua da Escola Politécnica

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos

 

A Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos fica localizada na freguesia de São Vicente, perto da Estação de comboios de Santa Apolónia. A sua função era a elevação das águas provenientes do Rio Alviela para o Reservatório da Verónica e para a Cisterna do Monte.

Dado o crescimento demográfico da cidade de Lisboa, a água abastecida pelo Aqueduto das Águas Livres tornou-se insuficiente.  Foi então construído o aqueduto do Alviela, entre 1871 e 1880, preparado para transportar água captada a 114 km a norte de Lisboa, proveniente das nascentes dos Olhos de Água do Rio Alviela.
Junto a um extinto convento Franciscano, ocupado pela ordem religiosa dos Barbadinhos Italianos, entre 1747 e 1834, foi instalado o reservatório da água transportada pelo Aqueduto do Alviela: o Reservatório dos Barbadinhos. Junto deste foi inaugurada em 1880 a Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, que esteve em serviço, ininterruptamente, até 1928. É classificada como Conjunto de Interesse Público desde 2010.

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, antigas máquinas a vapor

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, antigas máquinas a vapor

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos, antigas máquinas a vapor

 

A Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos foi responsável pela expansão da distribuição domiciliária de água em Lisboa. Estão expostas no local as antigas 4 máquinas a vapor, que constituem a exposição permanente. O vapor era produzido por 5 caldeiras de êmbolos verticais com dois cilindros cada, com camisa de vapor de expansão variável e de condensação. A “Sala das Bombas”, onde residiam as respetivas bombas, é uma das outras partes do edifício. A outra parte serviu como depósito de carvão, para alimentar as caldeiras e respetivas fornalhas.

O edifício possuía ainda uma chaminé no exterior, com 40 m de altura e 1,8 m de diâmetro interior, que extraía o fumo da queima do carvão. Tanto as caldeiras como a chaminé foram desmanteladas na década de 50.
No local existe uma exposição permanente do Museu da Água e o Arquivo Histórico da EPAL.  Também é palco de diversos eventos, exposições temporárias e conferências.

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos vista desde a Av. Infante D. Henrique

 

Estação Elevatória a Vapor dos Barbadinhos , projeto do antigo equipamento

 

 

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